Despedidas

Despedidas

– Mãe, a Ana Clara disse que eu falo muito alto.

O queixo querendo grudar no peito, os olhos espiando por cima, a frase sai da boca dela como quem pede desculpas. O assunto me pega de surpresa e sinto que a questão é delicada. Vou pelo caminho da verdade, que é o que me ocorre na hora.

– É, filha, é verdade. Mamãe e papai já te disseram… você, às vezes, fala muito alto. Enfatizo o “às vezes” para tentar dar uma amenizada. Lembra quando eu digoFala mais baixo, Laura” ou “Tô aqui pertinho, não grita que ninguém é surdo nesta casa?”

Olhos arregalados, um misto de insegurança e infelicidade tomam o rosto dela.

– Mãe, mas então ela ganhou?

De coração cortado, tento explicar que não se trata de ganhar ou perder, que embora a colega tenha razão no que disse, ela, Laura, também tem outras características muito “legais”, teço elogios, tento reerguer a moral arrasada da pequena.

– Mãe, mas ela disse que eu não posso ir na casa dela porque eu falo muito alto.

Shhh, e agora? Digo o quê? Tento numa fração de segundos decidir se é verdade ou fantasia: podem duas meninas de 3 anos travar esse tipo de diálogo, conversar sobre códigos de etiqueta e conduta social? Serão essas pequenas criaturas capazes de aplicar penas e punições a seus pares, discriminar colegas com base nos seus proto-valores e preferências pessoais? Não sabendo lá bem o que dizer, incrédula e encasquetada com as minhas próprias dúvidas, tomo a tangente e desisto de desconstruir o possível mal-entendido infantil, distraindo-a com outro assunto qualquer.

***

As aulas terminaram dois dias depois dessa conversa. Durante toda a semana que antecedeu às férias, Laura se recusou a ir à escola. Construiu um discurso, fantasioso e defensivo, sobre como ela não gostava do colégio –  só dos colegas. Não gostava da professora, da auxiliar, de ninguém. Não queria mais ir à escola e ponto. O sentimento era tanto que não conseguiu se despedir de ninguém.

***

No último dia de aula, o grupo de whatts das mães começa a pipocar com relatos de choros das crianças pela despedida das meninas que vão sair da escola no próximo ano  – Laura, Marina, Catarina. Sinto que ali tenho um trunfo e guardo a informação até decidir como tirar melhor proveito dela.

***

De noite, ela vem para minha cama. Como nos últimos dias, quer dormir comigo. O dia foi difícil, muito choro, muito não, muita birra. O comportamento dela nunca esteve tão ruim.   Está de banho tomado, com sua camisola favorita, bico na boca, cara de sono. Preciso desembaraçar os cachos e desfazer alguns nós.

– Filha, você tá triste porque acabou a escola, né?

– Sim.

– É normal ficar triste. Seus colegas também estão se sentido assim, sabia?

– Ahn?

Enquanto eu contava sobre as mensagens das mães, senti que uma nuvem começava a se desfazer sobre a cabeça dela. Conversamos mais um pouco, ela se apropriando dos fatos e dos sentimentos no limite do que a cabeça e o coração dão conta. Por último, pela primeira vez, me perguntou qual era o nome da “escola nova”. Só isso, o nome. Assunto encerrado, dormiu.

***

Na manhã seguinte, primeiro dia de férias, ela confirma comigo que – de fato – hoje não tem mais aulas. A noção de tempo ainda é muito circunstancial pra ela: existe “agora”, único momento que interessa; “ontem”, sinônimo de “era uma vez”, introdução para “vou te contar uma coisa que aconteceu”, seja minutos atrás ou em tempos remotos; e “depois”, tempo reservado a tudo que ela não quer fazer. “Hoje” e “amanhã” ainda são conceitos abstratos que ela não sabe bem onde encaixar nesse esquema.

– Não, filha, acabou a escola. Fechou, não tem mais ninguém lá. Agora é férias.

O olhar é de dúvida, de quem se esforça para imaginar como será o mundo daqui pra frente. Testemunha dessa pequena agonia, dou uma de mãezona e tento logo tirar ela desse barco à deriva:

– Filha, mas eu e as outras mamães estamos organizando de vocês se encontrarem nas férias para brincar. Podemos ir na casa do Matheus, da Marina, do Mathias…

E ela continua:

– … do Gabiel, do Téo, ahn….

E voltamos ao dilema da “Anacara”. Sinto que preciso resolver isso. Enquanto a Cachinhos Dourados ganha a atenção dela na TV, saco meu celular e teclo para a mãe da menina: “Bianca, Laura tá na maior mágoa com a Ana Clara”. E conto a história toda.

Ela responde com todo carinho, atenção e preocupação que tem as boas mães. Explica a origem da estória do “não pode vir na minha casa” (papos copiados da turminha da irmã mais velha, de 5 anos) e conta como a Aninha gosta da Laura (que ela chama de Lala), até deu esse nome para a boneca, coisas assim.

Chamo a Laura, aviso que chegou mensagem da mãe da Ana Clara. O dedo vai na boca de tanta ansiedade. Escuta tudo com atenção. O dedo sai da boca para dar lugar a um sorriso.

– Mãe, lê de novo?

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No elevador

No elevador

Beatriz estava impaciente em casa e decidi ir para rua com ela, único remédio mais efetivo que uma gota de luftal framboesa na ponta do bico. Nos refugiamos do calor e das calçadas mal-conservadas no shopping. Zanzamos desinteressadamente o primeiro andar e fomos pegar o elevador, onde me deparei com uma senhora loira, velha, mas não velha a ponto de precisar do elevador. Usava tênis branco e calças largas pretas, um óculos de sol estiloso, me pareceu modernosa, transada – como se dizia antigamente. Olhou a Beatriz, quietinha no carrinho, fez algum comentário artificialmente simpático e arremedou – “pena que crescem”.

Eu, que não sou muito dada a entrar no mérito da opinião alheia, assenti com a cabeça, “é, pois é”, mais afim de encerrar o assunto. Mas ela não se deu por satisfeita: ralhou alguma outra infelicidade e repetiu – “pena que crescem”. Na segunda vez que escutei isso, já senti a fumaça saindo pelos meus ouvidos e torci para a porta abrir logo para eu me afastar daquela nuvem escura ali do lado.

Saí do elevador um andar antes do planejado e fiquei imaginando o quanto de ressentimento aquela mulher deveria carregar em relação aos filhos.

Beatriz fez quatro meses esta semana e a última coisa que me passaria pela cabeça agora é “pena que crescem”. Ver ela crescer é talvez a melhor parte da experiência de ser mãe.

***

De uma vizinha de prédio escutei no elevador que o segundo filho é melhor porque o primeiro a gente estraga.

Não sei se iria tão longe, mas a esta dou uma certa razão: no primeiro, a gente vem com tanta expectativa, tantas ideias, tanta coisa na cabeça, que acaba atrapalhando um pouco a criança. Pode ser.

Uma das coisas boas de ter um segundo filho é que ele nos ajuda a redimir uma porção de culpas auto-infligidas. Poderosas semi-deusas do lar que invariavelmente somos, atribuímos a nós mesmas a responsabilidade por quase tudo que não saiu certo no primeiro – errei na alimentação, na disciplina, nos hábitos; não falei, falei demais; dei muita atenção, não dei bola; cobrei muito, não insisti. Não importa o quê, a gente acha que fez alguma coisa errado. Que podia ter feito diferente. Podia ter feito melhor. Por isso ficou desse jeito. Agora aguenta.

Daí vem o segundo, a gente se orienta, toma um norte, promete para si mesma que agora vai fazer direito. Anda na linha, corrige onde acha que errou e daí…daí dá na mesma!

Resolvido: é culpa dos genes. Não tinha como ser diferente.

E o melhor é que o contrário também é verdadeiro. Tem coisas que a gente simplesmente não aprende, não consegue evitar. Termina fazendo a mesma burrada com o segundo, as mesmas coisas ‘terríveis’ que estragaram o primeiro. Só que aí, big surprise! O segundo não se estragou, saiu direitinho.

Tá vendo? O problema era a criança; não a mãe.

***

Por essas e outras, sigo bem feliz em ver a Beatriz crescer na nossa cara todos os dias. Livre do peso de achar que tudo tem a ver com meus superfalíveis poderes maternos, vou curtindo observar as semelhanças e as diferenças entre as meninas, a maneira como elas interagem e vão se completando, cada uma pegando um pouquinho da outra e, com sorte, um tantinho do que é bom em nós.

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Olhares

Olhares

– Mãe, olha!

Direciono o olhar preguiçosamente e lanço um Que-lindo-minha-filha!, um daqueles incentivos maternos que misturam admiração e condescendência, totalmente permitidos no contexto (e só no contexto) de quem tem filhos pequenos. Tento retomar a conversa sobre alguma conta por pagar, a viagem que não vai sair, o vazamento na pia do banheiro da empregada.

– Mããããe, ô mããããe!

Não é uma, nem duas, nem três vezes. Hoje é um daqueles dias em que duzentas interrupções literalmente gritam na minha cara que eu não tô dando conta do riscado. Estou falhando no meu papel de equilibrista: melhor fechar o laptop, ceder o Spotify para o Balão Mágico, ir sentar no chão. Mas antes vou ali na cozinha achar algo para beliscar.

Mas quando você vai brincar comigo?

Pronto. Já estou no chão, estamos procurando no YouTube o vídeo da Galinha Magricela. Tento reengatar uma conversa adulta paralela qualquer.

Mãe, olha!

– Tô vendo Laura, você tá pulando muito bem.

Mas você não tá olhando!

Olho aquele beiço, respiro fundo. Tem dias que eles querem toda a atenção do mundo. Melhor desistir logo.

Mãe, olha!

Foi aí, no enésimo chamado, que eu virei para trás – e me vi.

Ela era eu, só um pouco menor, mais crespa e mais esperta, fazendo a exata mesma sapequice que eu fiz a infância toda, quase todos os dias, de escalar as portas da minha casa. Nunca falei para ela sobre isso, nunca demonstrei, não sei de onde ela tirou a ideia (memória genética, diz meu pai).

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Pelo resto da noite não precisou mais pedir para eu olhar. Agora eu tinha visto. E não conseguia mais tirar os olhos dela, daquela pequena parte de mim.

Mãos, olhos e boca

Mãos, olhos e boca

Como nunca mais serei mãe de um recém-nascido (nem de um bebê de 1, 2, 3 meses e por aí vai), a cada semana me pego me despedindo de alguma dessas fases que nunca vão se repetir.

Beatriz completou 3 meses na semana passada e agora (numa didática demonstração de coordenação olho-mão!) ela já tenta pegar os acessórios da cadeirinha, para orgulho e satisfação da mãe coruja aqui. Ainda que não sejam muito obedientes, as mãos já funcionam voluntariamente.

 

****

Um pouco antes, quando as mãos ainda não respondiam ao cérebro, a brincadeira preferida dela vinha sendo me provar. Experimentar com a boca minha bochecha, meu queixo, nariz, testa – qualquer parte do rosto que se aproximasse ganhava uma deliciosa mordida babada sem dentes. E um sorriso depois.

Enquanto ela se divertia me mordendo, uma pontada de nostalgia me afligiu; me dei conta de que essa coisa, gostosa e tão primitiva, de explorar o mundo com a boca estava por ficar para trás. Logo, logo? Muito em breve? Será que eu ainda tenho mais um tempo? Foi aí que lembrei desta foto, que o Christian ainda usa como ícone do meu contato no celular. Catei ela no iCloud e respirei aliviada: é de junho de 2015, Laura tinha 6 meses.

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Ainda bem que algumas coisas se despedem devagar.