Dia das mães

Dia das mães

Um amigo veio jantar aqui em casa esses dias e lá pelas tantas me perguntou “E aí? Afinal, o que é que muda?”. A pergunta era sobre ser mãe e me pegou de surpresa. Disse o óbvio, que muda tudo e me esforcei para sintetizar assim – “é como se, até ali, a tua vida fosse contada na 1ª pessoa e, dali pra frente, na 3ª.” Achei bom, mas tentei dar mais concretude explicando assim: “É como se, de uma hora para outra, tudo o que você ‘faz da vida’ passa a ser aquilo que você só dá um jeito de encaixar”. Ele pareceu satisfeito com a resposta, mas eu segui pensando sobre isso nos dias seguintes, já que estamos no mês das mães.

Três anos e dois filhos depois, o que é ser mãe pra mim, afinal?

Encaro a maternidade – ou pelo menos esta fase, de filhos pequenos – como um exercício diário de entrega, doação, abdicação. A gente dá tudo o que tem – literalmente dá a vida, o corpo, o tempo, dá tudo para que as crianças existam, resistam e tenham um dia feliz. Não que isso seja feito sem dor e sofrimento, longe disso; é um baita conflito e vira-e-mexe bate saudades de quando se tinha alguma autonomia e gerência sobre o próprio tempo. E não resta alternativa senão sorrir para aquela menina que um dia eu fui, se achando sem tempo para nada.

Ser mãe é ser uma exímia equilibrista e uma inveterada sofredora. É se culpar (quando não se martirizar) porque não dá conta de tudo como gostaria. Mas orgulhemo-nos: de um jeito ou de outro, a gente se organiza e resolve as necessidades de duas (ou três ou quatro) pessoas, todos os dias, 24h por dia – tudo coberto. Só que fica aquela parte rançosa da gente, sempre desejando estar mais presente, mais disponível, mais envolvida. Não dá. Longe do planeta Filho tem um mundo girando e a gente precisa estar nele também.

Por outro lado, ter filhos desacelera a roda do tempo e dá uma sensação boa de que a vida não termina aqui. Ter descendentes dá um senso de continuidade, alonga a estrada, tira a urgência das coisas. Filhos são oportunidades renovadas, chances multiplicadas, perspectivas de ser e viver mais coisas que não caberiam em uma só existência. E isso acalma.

Mas e a felicidade? E o amor? Não é isso que a gente aprende? Que ser mãe é amar e ser feliz?

Acho que o amor é o pano de fundo dessa relação. Está lá, o tempo todo, ora mais ora menos presente, agindo como uma cola que mantém tudo junto sem quebrar, sem despedaçar as partes no conflito, dando unidade e solidez ao conjunto. É o amor que cimenta e arremata a obra. É o amor que mantém a casa em pé depois da briga.

Mas a felicidade, essa sim, faz ter filhos valer a pena. É a felicidade que arrebata e faz a gente esquecer do resto. Ela, que não chega em caminhão nem carro de som, que é mais rápida que o flash da câmera, sentida mas impalpável. A felicidade que os filhos trazem vem em momentos, agudos e intangíveis, que entram na gente por microporos e arrepiam o corpo. A gente olha os filhos e sorri boba ao deparar com ela, como um filtro sobre uma foto, discreta e intensa como a luz que entra pelas frestas. A felicidade de ser mãe vem em conta-gotas, cada gota dando um banho na gente. Que sai renovada e pronta para outra.

No elevador

No elevador

Beatriz estava impaciente em casa e decidi ir para rua com ela, único remédio mais efetivo que uma gota de luftal framboesa na ponta do bico. Nos refugiamos do calor e das calçadas mal-conservadas no shopping. Zanzamos desinteressadamente o primeiro andar e fomos pegar o elevador, onde me deparei com uma senhora loira, velha, mas não velha a ponto de precisar do elevador. Usava tênis branco e calças largas pretas, um óculos de sol estiloso, me pareceu modernosa, transada – como se dizia antigamente. Olhou a Beatriz, quietinha no carrinho, fez algum comentário artificialmente simpático e arremedou – “pena que crescem”.

Eu, que não sou muito dada a entrar no mérito da opinião alheia, assenti com a cabeça, “é, pois é”, mais afim de encerrar o assunto. Mas ela não se deu por satisfeita: ralhou alguma outra infelicidade e repetiu – “pena que crescem”. Na segunda vez que escutei isso, já senti a fumaça saindo pelos meus ouvidos e torci para a porta abrir logo para eu me afastar daquela nuvem escura ali do lado.

Saí do elevador um andar antes do planejado e fiquei imaginando o quanto de ressentimento aquela mulher deveria carregar em relação aos filhos.

Beatriz fez quatro meses esta semana e a última coisa que me passaria pela cabeça agora é “pena que crescem”. Ver ela crescer é talvez a melhor parte da experiência de ser mãe.

***

De uma vizinha de prédio escutei no elevador que o segundo filho é melhor porque o primeiro a gente estraga.

Não sei se iria tão longe, mas a esta dou uma certa razão: no primeiro, a gente vem com tanta expectativa, tantas ideias, tanta coisa na cabeça, que acaba atrapalhando um pouco a criança. Pode ser.

Uma das coisas boas de ter um segundo filho é que ele nos ajuda a redimir uma porção de culpas auto-infligidas. Poderosas semi-deusas do lar que invariavelmente somos, atribuímos a nós mesmas a responsabilidade por quase tudo que não saiu certo no primeiro – errei na alimentação, na disciplina, nos hábitos; não falei, falei demais; dei muita atenção, não dei bola; cobrei muito, não insisti. Não importa o quê, a gente acha que fez alguma coisa errado. Que podia ter feito diferente. Podia ter feito melhor. Por isso ficou desse jeito. Agora aguenta.

Daí vem o segundo, a gente se orienta, toma um norte, promete para si mesma que agora vai fazer direito. Anda na linha, corrige onde acha que errou e daí…daí dá na mesma!

Resolvido: é culpa dos genes. Não tinha como ser diferente.

E o melhor é que o contrário também é verdadeiro. Tem coisas que a gente simplesmente não aprende, não consegue evitar. Termina fazendo a mesma burrada com o segundo, as mesmas coisas ‘terríveis’ que estragaram o primeiro. Só que aí, big surprise! O segundo não se estragou, saiu direitinho.

Tá vendo? O problema era a criança; não a mãe.

***

Por essas e outras, sigo bem feliz em ver a Beatriz crescer na nossa cara todos os dias. Livre do peso de achar que tudo tem a ver com meus superfalíveis poderes maternos, vou curtindo observar as semelhanças e as diferenças entre as meninas, a maneira como elas interagem e vão se completando, cada uma pegando um pouquinho da outra e, com sorte, um tantinho do que é bom em nós.

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