O pula-pula

O pula-pula

Eu tenho uma criança doce, sabidamente doce, não sou só eu – mãe – quem digo. A Laura é um docinho, de verdade. Toda faceira, carinhosa, amorosa, daquelas que gostam de gente e de estar perto ou às vezes grudada. Gosta de se aninhar no colo, de dançar de mãos dadas. Tem ainda a ingenuidade, própria dos dois anos, que lhe dá uma dose extra de graciosidade.

Só que hoje uma menina cuspiu na cara dela. Duas vezes.

Não era uma menina muito maior, devia ter seus 3, no máximo 4 anos. Estava vestida com uma fantasia genérica de princesa, rosa ou vermelha, saia de cetim e tule, os cabelos pretos presos num rabo de cavalo já desalinhado, o rosto colorido por uma dessas pinturinhas de festa de criança.

As duas, Laura e a menina má, dividiam há alguns segundos uma espécie de cama elástica montada dentro de uma casinha inflável. O monitor na porta, entediado, regulava as entradas. Eu, pela tela plástica da janelinha, acompanhava e incentivava a Laura, toda feliz e indiferente à sua notória inabilidade em saltar. A menina má pulava muito alto, vigorosa, com muito mais coordenação e destreza do que a pequena Laura. Que a um dado momento pulou e caiu. Sorriu sentada, como de costume. Levantou e quis convidar a menina para brincar: pegou a mão dela e ganhou uma cusparada na cara.

Vi a expressão dela de surpresa e incompreensão. Eu me ardi de raiva e antes que fizesse qualquer movimento, a menina cuspiu de novo. Protestei pela janela, não faz isso! e já me dirigi a porta da casinha para tirar a Laura dali, mais por instinto do que por convicção.

Procurei em volta pelo pai ou responsável, claro que não tinha ninguém.

Disse para ela Vamos sair, essa brincadeira não tá legal, mas ela quis ficar. Seguiram pulando mais um tempo, cada uma na sua, até que o monitor pediu que as duas saíssem para dar lugar aos próximos da fila. Na saída, enquanto descia o pequeno escorregador que levava para fora do brinquedo, eu disse para menina má que o que ela tinha feito era muito feio. Achei que era o máximo (ou o mínimo?) de educação que eu, uma desconhecida, podia dar. Ainda procurei mais uma vez pelos responsáveis por aquela criança (falaria algo se os encontrasse?), mas só a vi acompanhada de outras duas meninas alguns anos mais velhas.

Fiquei triste por alguns minutos, não sei se pela Laura ou pela menina, talvez pelas duas. Doeu ver a fragilidade da minha filha, sua incapacidade de se defender, ou mesmo de se dar conta de que havia sido ofendida, maltratada, desprezada de uma forma grosseira. Senti o baque porque tem algo de puro nela que me comove, e sei que esse episódio é só o primeiro de muitos que vão se repetir, até que a sucessão de asperezas um dia prevaleça e essa pureza desapareça por completo, para nunca mais voltar.

Fiquei triste pela menina, que tinha raiva, não tinha modos, não tinha ninguém que olhasse por ela.

A festa continuou e a banda dos SuperAmigos, com Batman nos vocais, tocou animadamente várias das nossas músicas. Dançamos, cantamos, nos abraçamos e fomos felizes como sempre, ou como nunca. Voltei com os 16kg dela no colo, com a desculpa de que estávamos com pressa, atrasadas para amamentar a Beatriz. Mentira, só queria protegê-la mais um pouco e me certificar de que estava mais intacta do que eu.

Festa de aniversário

Festa de aniversário

Saio na corrida para comprar uma meia-calça branca para Laura. Temos um encontro com a Elsa e a Ana às 17h30. Que bom que temos um shopping a três quadras de casa, nada mais conveniente para uma mãe descabeçada. O vestido da festa – amarelo de lacinho – já estava escolhido, mas a ameaça de frio me fez prudentemente experimentar as três meias-calças brancas que encontrei na gaveta do roupeiro dela. Nenhuma ficou boa – uma furada, outra pequena, a outra grande, toda fronha e desengonçada.

Chego na loja e, claro, não tem meia-calça branca. Lembro de ter comprado ali mesmo duas leggings – uma preta e outra azul-marinho – que viraram uniforme. A Laura nos últimos meses decidiu que só gosta de saia e vestido, escolhas muito convenientes para o inverno. Com isso, tá sempre usando as benditas leggings. Resolvido, então, comprarei leggings, isso, no plural, não só uma (a branca, que eu preciso), mas duas leggings que é para levar uma na cor preferida da mocinha – rosa, naturalmente. Um agradinho materno.

Chego para ela estrategicamente entusiasmada com as minhas compras, as duas leggings na sacola.

– Olha que lindo que a mamãe comprou!

– Eu quero a rosa.

– Filha, não combina rosa com amarelo.

– Mas eu quero a roooosaaaa! Buáááááá

Botão do descontrole em modo on. Olho no relógio, 17h. Precisamos contornar isso já.

– Tá então vai sem legging, tudo bem. Mas bota o casaquinho branco para sair.

– Não, eu quero o pêto!

Mais lágrimas se amontoam nos olhos já vermelhos. Respiro fundo. Cedo de novo: basta que ela leve o casquinho branco e coloque quando estiver com frio.

– Fica bem assim?

– Siiiim.

Enxuga as lágrimas. Vai dormindo na cadeirinha. Acorda revigorada, veste sem protesto o casaquinho branco antes mesmo de descer do carro. São 17h33. Nos aproximamos do salão já ao som de “Let it go, let it go”.  Abro a porta do salão e me deparo com as personificações de Elsa e Ana, um cover perfeito das princesas, já em meio a sua performance musical. Laura prontamente senta no chão ao lado das demais crianças, todas boquiabertas e encantadas com aquelas visitas ilustres.

****

Muitas palminhas e coreografias depois, é hora do parabéns. Laura consegue um lugar de honra na mesa, não ao lado da aniversariante, mas da Ana.

Velinhas apagadas, Laura quer descer. Não quer esperar o bis, há coisas mais interessantes na sua mira:

– Mãe, posso comer esse?

****

Alguns docinhos e copinhos depois, Ana se aproxima e convida a Laura para brincar do jogo da memória. Ela ainda não entende esse jogo, mas como o convite é da Ana, é irrecusável. Senta-se na roda, ao lado da Ana, e observa, aguardando sua vez. Me aproximo para perguntar alguma coisa, ela fica com meu pacote de pipocas. Na primeira rodada, Ana gentilmente segurou as pipocas para ela. Na segunda, foi a vez de um brigadeiro lambido de colher, depois uma água de coco tingida de azul. Quando se aproximou o garçom com as fatias de bolo, achei melhor acabar logo com o jogo.

****

A anfitriã me avisa que Elsa e Ana estão indo embora. Se quiser foto, a hora é agora. Laura diz que não quer, mas eu sei que quer. Me ofereço para tirar junto. Resolvido. Feliz?

– Mãe, mas por que elas vão embora agora?

– Por que elas tem outra festa para ir.

– Mas de quem é a festa?

– Ah, Laura, não sei. Alguém que a gente não conhece.

– Mas por quê?

***

É hora de ir para casa, preciso amamentar a Beatriz. Nos despedimos, Laura escolhe com cuidado uma das lembrancinhas, como se não fossem todas iguais.

– E aí – pergunto – gostou da festa?

– Simm. Ô, cadê meu casaquinho pêto?