Olhares

Olhares

– Mãe, olha!

Direciono o olhar preguiçosamente e lanço um Que-lindo-minha-filha!, um daqueles incentivos maternos que misturam admiração e condescendência, totalmente permitidos no contexto (e só no contexto) de quem tem filhos pequenos. Tento retomar a conversa sobre alguma conta por pagar, a viagem que não vai sair, o vazamento na pia do banheiro da empregada.

– Mããããe, ô mããããe!

Não é uma, nem duas, nem três vezes. Hoje é um daqueles dias em que duzentas interrupções literalmente gritam na minha cara que eu não tô dando conta do riscado. Estou falhando no meu papel de equilibrista: melhor fechar o laptop, ceder o Spotify para o Balão Mágico, ir sentar no chão. Mas antes vou ali na cozinha achar algo para beliscar.

Mas quando você vai brincar comigo?

Pronto. Já estou no chão, estamos procurando no YouTube o vídeo da Galinha Magricela. Tento reengatar uma conversa adulta paralela qualquer.

Mãe, olha!

– Tô vendo Laura, você tá pulando muito bem.

Mas você não tá olhando!

Olho aquele beiço, respiro fundo. Tem dias que eles querem toda a atenção do mundo. Melhor desistir logo.

Mãe, olha!

Foi aí, no enésimo chamado, que eu virei para trás – e me vi.

Ela era eu, só um pouco menor, mais crespa e mais esperta, fazendo a exata mesma sapequice que eu fiz a infância toda, quase todos os dias, de escalar as portas da minha casa. Nunca falei para ela sobre isso, nunca demonstrei, não sei de onde ela tirou a ideia (memória genética, diz meu pai).

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Pelo resto da noite não precisou mais pedir para eu olhar. Agora eu tinha visto. E não conseguia mais tirar os olhos dela, daquela pequena parte de mim.

O pula-pula

O pula-pula

Eu tenho uma criança doce, sabidamente doce, não sou só eu – mãe – quem digo. A Laura é um docinho, de verdade. Toda faceira, carinhosa, amorosa, daquelas que gostam de gente e de estar perto ou às vezes grudada. Gosta de se aninhar no colo, de dançar de mãos dadas. Tem ainda a ingenuidade, própria dos dois anos, que lhe dá uma dose extra de graciosidade.

Só que hoje uma menina cuspiu na cara dela. Duas vezes.

Não era uma menina muito maior, devia ter seus 3, no máximo 4 anos. Estava vestida com uma fantasia genérica de princesa, rosa ou vermelha, saia de cetim e tule, os cabelos pretos presos num rabo de cavalo já desalinhado, o rosto colorido por uma dessas pinturinhas de festa de criança.

As duas, Laura e a menina má, dividiam há alguns segundos uma espécie de cama elástica montada dentro de uma casinha inflável. O monitor na porta, entediado, regulava as entradas. Eu, pela tela plástica da janelinha, acompanhava e incentivava a Laura, toda feliz e indiferente à sua notória inabilidade em saltar. A menina má pulava muito alto, vigorosa, com muito mais coordenação e destreza do que a pequena Laura. Que a um dado momento pulou e caiu. Sorriu sentada, como de costume. Levantou e quis convidar a menina para brincar: pegou a mão dela e ganhou uma cusparada na cara.

Vi a expressão dela de surpresa e incompreensão. Eu me ardi de raiva e antes que fizesse qualquer movimento, a menina cuspiu de novo. Protestei pela janela, não faz isso! e já me dirigi a porta da casinha para tirar a Laura dali, mais por instinto do que por convicção.

Procurei em volta pelo pai ou responsável, claro que não tinha ninguém.

Disse para ela Vamos sair, essa brincadeira não tá legal, mas ela quis ficar. Seguiram pulando mais um tempo, cada uma na sua, até que o monitor pediu que as duas saíssem para dar lugar aos próximos da fila. Na saída, enquanto descia o pequeno escorregador que levava para fora do brinquedo, eu disse para menina má que o que ela tinha feito era muito feio. Achei que era o máximo (ou o mínimo?) de educação que eu, uma desconhecida, podia dar. Ainda procurei mais uma vez pelos responsáveis por aquela criança (falaria algo se os encontrasse?), mas só a vi acompanhada de outras duas meninas alguns anos mais velhas.

Fiquei triste por alguns minutos, não sei se pela Laura ou pela menina, talvez pelas duas. Doeu ver a fragilidade da minha filha, sua incapacidade de se defender, ou mesmo de se dar conta de que havia sido ofendida, maltratada, desprezada de uma forma grosseira. Senti o baque porque tem algo de puro nela que me comove, e sei que esse episódio é só o primeiro de muitos que vão se repetir, até que a sucessão de asperezas um dia prevaleça e essa pureza desapareça por completo, para nunca mais voltar.

Fiquei triste pela menina, que tinha raiva, não tinha modos, não tinha ninguém que olhasse por ela.

A festa continuou e a banda dos SuperAmigos, com Batman nos vocais, tocou animadamente várias das nossas músicas. Dançamos, cantamos, nos abraçamos e fomos felizes como sempre, ou como nunca. Voltei com os 16kg dela no colo, com a desculpa de que estávamos com pressa, atrasadas para amamentar a Beatriz. Mentira, só queria protegê-la mais um pouco e me certificar de que estava mais intacta do que eu.