Festa de aniversário

Festa de aniversário

Saio na corrida para comprar uma meia-calça branca para Laura. Temos um encontro com a Elsa e a Ana às 17h30. Que bom que temos um shopping a três quadras de casa, nada mais conveniente para uma mãe descabeçada. O vestido da festa – amarelo de lacinho – já estava escolhido, mas a ameaça de frio me fez prudentemente experimentar as três meias-calças brancas que encontrei na gaveta do roupeiro dela. Nenhuma ficou boa – uma furada, outra pequena, a outra grande, toda fronha e desengonçada.

Chego na loja e, claro, não tem meia-calça branca. Lembro de ter comprado ali mesmo duas leggings – uma preta e outra azul-marinho – que viraram uniforme. A Laura nos últimos meses decidiu que só gosta de saia e vestido, escolhas muito convenientes para o inverno. Com isso, tá sempre usando as benditas leggings. Resolvido, então, comprarei leggings, isso, no plural, não só uma (a branca, que eu preciso), mas duas leggings que é para levar uma na cor preferida da mocinha – rosa, naturalmente. Um agradinho materno.

Chego para ela estrategicamente entusiasmada com as minhas compras, as duas leggings na sacola.

– Olha que lindo que a mamãe comprou!

– Eu quero a rosa.

– Filha, não combina rosa com amarelo.

– Mas eu quero a roooosaaaa! Buáááááá

Botão do descontrole em modo on. Olho no relógio, 17h. Precisamos contornar isso já.

– Tá então vai sem legging, tudo bem. Mas bota o casaquinho branco para sair.

– Não, eu quero o pêto!

Mais lágrimas se amontoam nos olhos já vermelhos. Respiro fundo. Cedo de novo: basta que ela leve o casquinho branco e coloque quando estiver com frio.

– Fica bem assim?

– Siiiim.

Enxuga as lágrimas. Vai dormindo na cadeirinha. Acorda revigorada, veste sem protesto o casaquinho branco antes mesmo de descer do carro. São 17h33. Nos aproximamos do salão já ao som de “Let it go, let it go”.  Abro a porta do salão e me deparo com as personificações de Elsa e Ana, um cover perfeito das princesas, já em meio a sua performance musical. Laura prontamente senta no chão ao lado das demais crianças, todas boquiabertas e encantadas com aquelas visitas ilustres.

****

Muitas palminhas e coreografias depois, é hora do parabéns. Laura consegue um lugar de honra na mesa, não ao lado da aniversariante, mas da Ana.

Velinhas apagadas, Laura quer descer. Não quer esperar o bis, há coisas mais interessantes na sua mira:

– Mãe, posso comer esse?

****

Alguns docinhos e copinhos depois, Ana se aproxima e convida a Laura para brincar do jogo da memória. Ela ainda não entende esse jogo, mas como o convite é da Ana, é irrecusável. Senta-se na roda, ao lado da Ana, e observa, aguardando sua vez. Me aproximo para perguntar alguma coisa, ela fica com meu pacote de pipocas. Na primeira rodada, Ana gentilmente segurou as pipocas para ela. Na segunda, foi a vez de um brigadeiro lambido de colher, depois uma água de coco tingida de azul. Quando se aproximou o garçom com as fatias de bolo, achei melhor acabar logo com o jogo.

****

A anfitriã me avisa que Elsa e Ana estão indo embora. Se quiser foto, a hora é agora. Laura diz que não quer, mas eu sei que quer. Me ofereço para tirar junto. Resolvido. Feliz?

– Mãe, mas por que elas vão embora agora?

– Por que elas tem outra festa para ir.

– Mas de quem é a festa?

– Ah, Laura, não sei. Alguém que a gente não conhece.

– Mas por quê?

***

É hora de ir para casa, preciso amamentar a Beatriz. Nos despedimos, Laura escolhe com cuidado uma das lembrancinhas, como se não fossem todas iguais.

– E aí – pergunto – gostou da festa?

– Simm. Ô, cadê meu casaquinho pêto?

Novos tempos

Novos tempos

Sirvo um cálice de vinho, a casa em silêncio, as duas dormindo. Missão cumprida, mais um dia, mais uma vez. Penso sobre tudo o que passamos, a longa noite que ainda está por vir, sinto o cansaço feliz da maternidade.

Como quase todos, foi um dia de altos e baixos; alguns choros, quase nenhuma briga, muitos colos e sorrisos. Mas com nitidez ficou o momento (5, 10 minutos?) em que vi minha pequena Beatriz brincar pela primeira vez.

Deitada sobre a minha cama, barriga ainda estufada, cabeça na almofada, percebeu o pequeno bichinho de pelúcia que chacoalhei despretensiosamente em frente ao seu rosto. Agitei o bonequinho, ouvi o tsch-tsch-tsch das bolinhas na sua barriga, apertei suas asinhas barulhentas, e ela sorriu. Repeti os movimentos, conferi sua reação e como num experimento me certifiquei de que aquilo não era casualidade. Beatriz sintonizou com o papagaio (seria um passarinho?) e vi uma mistura de espanto e alegria colorirem o seu rosto. Minha filha já brinca. Pronto, acabou – pensei, não sei se com alívio ou comiseração. Já não tenho mais aquele bichinho puro reflexo, que não quer mais do que a fralda limpa, o seio quente e o colo apertado. Nunca mais terei.

O celular toca, a brincadeira é subitamente interrompida e ela chora, como que a comprovar para mim que, sim, as coisas mudaram.

 

***

Enquanto preparava a cama com a avó, Laura soltou um “Mas quem vai dormir comigo?”, com uma voz melosa, quase manipuladora. “Mas você não dorme sozinha todas as noites?”, retrucou a avó, coração já meio mole após 3 noites seguidas dividindo o pequeno quarto com a neta. Chegaram a um acordo de que a avó deitaria ao lado dela até que pegasse no sono.

Nesta noite – a última em que ficariam juntas – não quis conversas, não quis estórias. Só o contato da pele quente e a presença maiúscula da avó, que lhe trazia um misto de conforto e segurança que só os avós são capazes de oferecer.