Escuta

Quando a gente se torna mãe, ganha uma nova identidade. Parte de você ainda sabe quem você era e vira-e-mexe fortuitamente se reencontra consigo mesma. É descansar por cinco minutos no sofá e lá vem a lembrança do tempo das maratonas televisivas. É tentar planejar uma viagem de família para lembrar do tempo em que a gente ia simplesmente porque “deu a louca”. Nosso velho eu vaga por aí, sempre nostálgico e acintosamente contrastante. Éramos mulheres médicas, advogadas, psicólogas, enfermeiras, nutricionistas, engenheiras. Agora somos isso e algo mais – talvez muito mais.

A maternidade joga nosso nome próprio num quase esquecimento. Em casa, o seu nome é cada vez menos ouvido. Agora você responde por “mãe”, “mamãe”, “manhê” e todas as suas variações. São dezenas – que parecem milhares – de chamados por dia, na forma de choros, pedidos, súplicas, demandas, todo tipo de gesto e vocalização voltados para você, a toda poderosa soberana do lar. “Mãe, me limpa!”. “Mãe, vamos brincar de esconde-esconde?”. “Mãe, quero suco!”. “Mãe! Mãe! Mãããããããe…não tá me ouvindo?”.

Muitos já disseram que ser mãe é o trabalho mais difícil do mundo. Não sei. Mas é verdade que os plantões são infinitos, a responsabilidade é pesada e a cobrança não é mole. São dúzias de decisões diárias e incontáveis tarefas para equilibrar. Não tem folga aos sábados ou aos domingos. Lida-se com excrementos, secreções, suor e lágrimas, muitas lágrimas. É preciso aprender um pouco de nutrição, enfermagem, medicina, pedagogia, psicologia. É preciso aprender a ser zen. É mandatório ser forte, organizada, ser capaz de planejar e antecipar situações. E se faltar fralda para criança, se a vacina atrasar, se o casaco ficar em casa e a sucata não chegar à escola de quem será a culpa? Felizmente temos estabilidade no emprego.

Então, na próxima vez que teu filho te chamar, clamando por mais e mais atenção, aquece e tranquiliza teu coração lembrando de todas nós no mesmo barco. Estamos sim sempre escutando, mesmo quando parece que não. Escutamos os filhos na vigília ou no sono (que nunca mais é o mesmo). Escutamos enquanto tentamos ler o livro ou se distrair numa tela. Escutamos no trabalho e à distância. Nas noites em claro pela febre. Nos perrengues e nas brigas. Estamos sempre escutando. Ouvidos abertos e olhos prontos para lacrimejar diante das pequenas trivialidades cotidianas, que sorrateiramente nos permitem ver exatamente quem nossos filhos são e para onde estão indo e recompensam infinitamente nosso árduo trabalho.

Nesse dia das mães, meu abraço para todas as amigas que se dedicam com amor e afinco a essa tarefa amadamente insana; às que conseguem encontrar satisfação em ver a bagunça na sala no final do dia; às que vivem cientes e confortáveis de suas imperfeições como mãe, mulher, profissional.  

Queria escrever mais, mas o dever me chama no quarto ao lado.

– “Mããããããe”!

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