No hospital

Esta semana tivemos que tomar a difícil decisão de levar a Laura para o hospital, pela 2ª vez. É bem difícil, sempre tento evitar – não sei quantas vezes já segurei em casa no sangue frio – mas desta vez não teve como: já tinha esgotado meus recursos caseiros, nenhuma melhora e alguma piora despontando no horizonte.

– Laura, a mãe vai ter que te levar pro hospital. Para respirar melhor, filha.

Choros e gritos.

– Eu não queroooo!

Tiro o pijama, coloco um vestidinho qualquer, vai de chinelo mesmo. O pai ao volante, eu com ela no colo no banco de trás – a solidão da cadeirinha a essas horas não dá. Já exausta, ela se entrega ao sono num trajeto de 4 ruas e menos de 10 minutos. Eu palpo extremidades, verifico pulsos, mão no peito para garantir que está respirando.

Entro na emergência lotada com ela sonolenta no meu colo, a cena é algo dramática, o suficiente para nos passarem direto para dentro. A técnica de enfermagem verifica sinais, eu já me identifico logo como pediatra, e ela confere que a informação procede: a saturação não está boa, 91%. Vem a médica, ainda estamos em pé no corredor, duas ou três perguntas e ela orienta rapidamente a nebulização e o oxigênio. Damos entrada na sala de observação; a papelada fica para depois.

***

Para alívio geral, depois da primeira nebu a saturação já sobe para 95%. Como esperado, a Laura fica furiosa com o cateter de oxigênio – um tubinho plástico maleável, com dois pequenos tentáculos que se projetam para dentro de cada narina. Não aceita, quer tirar, puxa, grita, chora. E a oxigenação cai.

Demora uns bons 30 minutos, 1 hora, para ela acalmar e aceitar o fato de que está no hospital e precisa fazer o que precisa ser feito.

Por sorte, pegamos uma técnica de enfermagem com boa cancha, que soube vender a cânula plástica de oxigênio como um “óculos especial” e desafiou ela a nebulizar sozinha – e a pequena não é de negar um desafio.

Passamos a noite na emergência, o pai segurando as pontas enquanto eu estava de volta em casa para amamentar a Beatriz durante a mais longa das madrugadas.

***

De manhã, ela já é outra criança – a minha Laura – elétrica, falante, inventando brincadeiras e letras de música. E perguntando pela comida, claro. Trago na bolsa o meu saturômetro, verifico os sinais, 96-97%, aviso que vamos para casa logo mais. Enquanto espera o café chegar, ela pede para fazer xixi, e aproveito o momento para tirá-la do oxigênio em definitivo. Mãe médica é dureza.

***

Terminado o suco de laranja com pão de queijo, a médica chega e confirma nossa expectativa de alta.

E aí, gostou do hospital, Laura? – pergunto.

Gostei. Fica pensativa. Gostei muito dos pacientes. Novamente pensativa. Os pacientes sou eu, né? Sorrisão.

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Na saída, ela tem uma pulseirinha de identificação. Querem cortar, mas ela quer levar a lembrancinha para casa, para mostrar para mana.

Tem código de barras…. – novo sorrisão.

***

Antes da alta, ela recebe uma nova dose de corticoide, que somada a do dia anterior, é o suficiente para deixá-la totalmente maníaca. Está a mil, em nada sugere alguém que acabou de sair do hospital.

À noite, conto sobre as pessoas que estavam preocupadas com ela e pergunto se quer gravar uma mensagem. No áudio para o avô postiço, Philippe, que mora longe, ela o tranquiliza com a doçura e a cadência dos seus 3 anos:

Fifi, boa noite. Eu te amo. Já voltei do hospital. Já tô um pouco melhor, mas tô com um pouco de tosse. Ahhn.. tô espirrando, mas tô um pouco meio, meio doida, que eu ‘tavo’ fazendo macaquice… mas eu tenho um pouquinho de atchim, o atchim vai ‘melolár’ um pouco mais, a tosse tá respirando bem… ahn, eu tô respirando, já voltei do hospital, já tô em casa, quando tu voltar eu te mando outra mensagem. Beijo.

 

Contrariando todas as diretrizes médicas, naquela noite compartilhamos a cama – e com ela a imensa felicidade de estarmos todos bem e juntos em casa.

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