Beatriz estava impaciente em casa e decidi ir para rua com ela, único remédio mais efetivo que uma gota de luftal framboesa na ponta do bico. Nos refugiamos do calor e das calçadas mal-conservadas no shopping. Zanzamos desinteressadamente o primeiro andar e fomos pegar o elevador, onde me deparei com uma senhora loira, velha, mas não velha a ponto de precisar do elevador. Usava tênis branco e calças largas pretas, um óculos de sol estiloso, me pareceu modernosa, transada – como se dizia antigamente. Olhou a Beatriz, quietinha no carrinho, fez algum comentário artificialmente simpático e arremedou – “pena que crescem”.

Eu, que não sou muito dada a entrar no mérito da opinião alheia, assenti com a cabeça, “é, pois é”, mais afim de encerrar o assunto. Mas ela não se deu por satisfeita: ralhou alguma outra infelicidade e repetiu – “pena que crescem”. Na segunda vez que escutei isso, já senti a fumaça saindo pelos meus ouvidos e torci para a porta abrir logo para eu me afastar daquela nuvem escura ali do lado.

Saí do elevador um andar antes do planejado e fiquei imaginando o quanto de ressentimento aquela mulher deveria carregar em relação aos filhos.

Beatriz fez quatro meses esta semana e a última coisa que me passaria pela cabeça agora é “pena que crescem”. Ver ela crescer é talvez a melhor parte da experiência de ser mãe.

***

De uma vizinha de prédio escutei no elevador que o segundo filho é melhor porque o primeiro a gente estraga.

Não sei se iria tão longe, mas a esta dou uma certa razão: no primeiro, a gente vem com tanta expectativa, tantas ideias, tanta coisa na cabeça, que acaba atrapalhando um pouco a criança. Pode ser.

Uma das coisas boas de ter um segundo filho é que ele nos ajuda a redimir uma porção de culpas auto-infligidas. Poderosas semi-deusas do lar que invariavelmente somos, atribuímos a nós mesmas a responsabilidade por quase tudo que não saiu certo no primeiro – errei na alimentação, na disciplina, nos hábitos; não falei, falei demais; dei muita atenção, não dei bola; cobrei muito, não insisti. Não importa o quê, a gente acha que fez alguma coisa errado. Que podia ter feito diferente. Podia ter feito melhor. Por isso ficou desse jeito. Agora aguenta.

Daí vem o segundo, a gente se orienta, toma um norte, promete para si mesma que agora vai fazer direito. Anda na linha, corrige onde acha que errou e daí…daí dá na mesma!

Resolvido: é culpa dos genes. Não tinha como ser diferente.

E o melhor é que o contrário também é verdadeiro. Tem coisas que a gente simplesmente não aprende, não consegue evitar. Termina fazendo a mesma burrada com o segundo, as mesmas coisas ‘terríveis’ que estragaram o primeiro. Só que aí, big surprise! O segundo não se estragou, saiu direitinho.

Tá vendo? O problema era a criança; não a mãe.

***

Por essas e outras, sigo bem feliz em ver a Beatriz crescer na nossa cara todos os dias. Livre do peso de achar que tudo tem a ver com meus superfalíveis poderes maternos, vou curtindo observar as semelhanças e as diferenças entre as meninas, a maneira como elas interagem e vão se completando, cada uma pegando um pouquinho da outra e, com sorte, um tantinho do que é bom em nós.

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