É dia das crianças, feriado no meio da semana. A rotina começa como a de todos os dias: tão logo amanhece, o bebê acorda, indiferente à minha preguiça. Respiro fundo, levanto e dez minutos depois, Beatriz está amamentada e feliz. Sorri, se espreguiça no meu colo, quer voltar a dormir. Caminho com ela pelo quarto, espero arrotar, devolvo ao berço.

Inútil tentar voltar para cama – o dia já começou. Resoluta, recolho o jornal embaixo da porta, começo a preparar o café, chove muito lá fora, não vai dar para sair. Dia das crianças não combina com chuva. Enquanto coloco água na cafeteira, Laura acorda, vem me procurar na sala. Mãe, vamo bincar? É, não são sete horas ainda, mas o dia realmente já começou.

Não comento nada com ela de que hoje é dia das crianças, vou esperar o pai acordar para dar o presente, mas talvez pela data me sinto forçosamente obrigada a aceitar o convite, sem negociar. Abandono o preparo do café, devolvo o ovo à geladeira, nem sei onde larguei o jornal. Quem sabe depois.

Engreno a brincadeira o suficiente para distrai-la com suas próprias ideias por alguns instantes. Encontro o jornal na bancada, leio as manchetes, separo os ingredientes da omelete, ligo a cafeteira. Pronto, as coisas estão andando. O dia vai ser bom, apesar de toda a chuva.

Ouço Beatriz chorar, preciso recolhê-la do berço. Agora são três a equilibrar– Laura, Beatriz, o café que já esfria na térmica. Sinto cheiro de teflon queimado e desligo a frigideira que deixei vazia aquecendo sob o fogão. A massa da omelete ficou ali esperando. Como depois.

Olho a chuva pela janela, a cidade quase parada, e evito pensar no que eu queria ou poderia querer agora. Evito pensar em mim. Vou construindo um discurso interno para me convencer de que todas as pequenas abdicações cotidianas são apenas isso, pequenas abdicações desimportantes – o jornal nunca tem nada que preste; minha cama nem é tão boa assim; já dormi o suficiente; posso deixar para amanhã. E quando começa a bater uma pontinha de dúvida ou sofrimento por essas meias-verdades, me forço a pôr a cabeça no lugar e lembrar do quanto já desejei estar justamente onde estou.

Ao longo do longo dia, conciliamos afazeres domésticos (sempre atrasados) com brincadeiras de boneca e princesas com a Laura. Recorremos aos móbiles, tapetes, espelhos e caixas de música para entreter a Beatriz. Sobrevivemos a cólicas e ao mal humor, administramos a fome de uma e o sono da outra. Chegamos exaustos e vitoriosos à noite.

Feriado-com-chuva combina com uma xícara de chá, um livro, uma maratona na TV, uma longa sesta depois do almoço. Mas não dá. Nem hoje, nem amanhã, nem tão cedo. Alguém sabe como é que a gente resiste a isso? Amor, alguns dirão, amor é justamente isso.

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