É noite e a chuva prometida finalmente chegou. As crianças dormem, a televisão baixinha no quarto me distrai enquanto o sono não chega. O silêncio é subitamente rompido pelo som, muito nítido, de um bico que cai no chão. Não me alarmo, mas na dúvida (será instinto?), vou até o quarto ao lado, completamente escuro, só as luzes da rua atravessando os vazios da persiana.

Quase esbarro no carrinho, todo preto, parado ao lado do berço; palpo o assento, toco de novo e não encontro ninguém. Olho o berço vazio. De relance, percebo algo no chão, um vulto. Incrédula, recolho o pequeno corpo estirado de bruços, imóvel, silencioso. Um misto de pânico e aflição só me deixam dizer “Christian, ela caiu”.

Ela dorme, a respiração calma e regular, o corpo quente. Não chora. Mexe braços e pernas, procuro alguma marca visível no corpo – não há. Ofereço o seio como quem pede desculpas e se corrói de uma culpa avassaladora. Palpo todas as dobras, examino todo o crânio, tudo parece no lugar. Vai dormir aqui agora. Nós não vamos dormir.

Na tentativa infrutífera de apaziguar a dor e amenizar o erro conscientemente cometido, nos distraímos com perguntas inúteis e sem resposta – o que aconteceu? Como ela caiu? Por que estava de bruços? Como é que não chorou? Quem colocou ela no carrinho? Só sinto culpa e sofro pela fragilidade exposta dela e de todos nós.

Só que a sensação de culpa hoje é diferente, dói diferente. Aquela culpa maternal, ao mesmo tempo boa e doída, romba, redonda, é feita de pura entrega e compaixão, aflora na vontade de livrar o outro de qualquer dor, mesmo das necessárias. Hoje a culpa é incisiva, lacerante, aguda. A culpa de quem errou com quem não podia errar, não devia errar, com quem não tem defesa, não tem escolha, só pede amparo. É uma culpa monstruosa, avassaladora, de quem – por um triz, por sorte, por destino, por Deus – se safou de uma tragédia da qual jamais, jamais, jamais se recuperaria. Dorme, meu anjo, que teus anjos te protegem.

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