Há 1 ano

Há 1 ano

Minha mãe me mandou uma mensagem para me lembrar que ontem fez um ano do dia em que eu tive um piripaque e fui levada de ambulância para a emergência da NYU, enquanto o Christian se desabava pela 7ª avenida para tentar chegar a tempo de me acompanhar. Nunca se soube por que, mas eu desmaiei numa loja de artigos de festa em NY, acompanhada das pobres da Laura, à época com 1 ano e 10, e da minha mãe.  Lembro nitidamente da sensação súbita de me sentir mole e com sono, a consciência in-and-out, breves apagões, até que bum…apaguei e só fui acordar na ambulância.

Um ano depois e uma filha depois, a saúde aparentemente intacta, só tenho a agradecer. Ainda bem que a minha mãe estava comigo naquela hora e que a Laura era muito pequena para entender ou mesmo lembrar do que aconteceu. Ainda bem que o Christian estava lá para cuidar de tudo. Quando voltamos para o apartamento, tarde da noite, a Laura estava linda, de pijama novo, dormindo com a avó como se nada tivesse acontecido.

A gente deseja saúde aos outros e fala que saúde é tudo, mas parece que só nesses momentos consegue sentir isso de verdade. Penso na loteria que é ter filhos saudáveis e na atenção que requer mantê-los assim. E que mesmo com sorte no início e cuidado no caminho, a jornada ainda pode trazer surpresas desagradáveis e pôr tudo a perder num segundo.

Ter filhos não exige só tempo, paciência, dinheiro, saúde, entrega, amor, disponibilidade. Exige coragem.

 

Mãos, olhos e boca

Mãos, olhos e boca

Como nunca mais serei mãe de um recém-nascido (nem de um bebê de 1, 2, 3 meses e por aí vai), a cada semana me pego me despedindo de alguma dessas fases que nunca vão se repetir.

Beatriz completou 3 meses na semana passada e agora (numa didática demonstração de coordenação olho-mão!) ela já tenta pegar os acessórios da cadeirinha, para orgulho e satisfação da mãe coruja aqui. Ainda que não sejam muito obedientes, as mãos já funcionam voluntariamente.

 

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Um pouco antes, quando as mãos ainda não respondiam ao cérebro, a brincadeira preferida dela vinha sendo me provar. Experimentar com a boca minha bochecha, meu queixo, nariz, testa – qualquer parte do rosto que se aproximasse ganhava uma deliciosa mordida babada sem dentes. E um sorriso depois.

Enquanto ela se divertia me mordendo, uma pontada de nostalgia me afligiu; me dei conta de que essa coisa, gostosa e tão primitiva, de explorar o mundo com a boca estava por ficar para trás. Logo, logo? Muito em breve? Será que eu ainda tenho mais um tempo? Foi aí que lembrei desta foto, que o Christian ainda usa como ícone do meu contato no celular. Catei ela no iCloud e respirei aliviada: é de junho de 2015, Laura tinha 6 meses.

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Ainda bem que algumas coisas se despedem devagar.

O pula-pula

O pula-pula

Eu tenho uma criança doce, sabidamente doce, não sou só eu – mãe – quem digo. A Laura é um docinho, de verdade. Toda faceira, carinhosa, amorosa, daquelas que gostam de gente e de estar perto ou às vezes grudada. Gosta de se aninhar no colo, de dançar de mãos dadas. Tem ainda a ingenuidade, própria dos dois anos, que lhe dá uma dose extra de graciosidade.

Só que hoje uma menina cuspiu na cara dela. Duas vezes.

Não era uma menina muito maior, devia ter seus 3, no máximo 4 anos. Estava vestida com uma fantasia genérica de princesa, rosa ou vermelha, saia de cetim e tule, os cabelos pretos presos num rabo de cavalo já desalinhado, o rosto colorido por uma dessas pinturinhas de festa de criança.

As duas, Laura e a menina má, dividiam há alguns segundos uma espécie de cama elástica montada dentro de uma casinha inflável. O monitor na porta, entediado, regulava as entradas. Eu, pela tela plástica da janelinha, acompanhava e incentivava a Laura, toda feliz e indiferente à sua notória inabilidade em saltar. A menina má pulava muito alto, vigorosa, com muito mais coordenação e destreza do que a pequena Laura. Que a um dado momento pulou e caiu. Sorriu sentada, como de costume. Levantou e quis convidar a menina para brincar: pegou a mão dela e ganhou uma cusparada na cara.

Vi a expressão dela de surpresa e incompreensão. Eu me ardi de raiva e antes que fizesse qualquer movimento, a menina cuspiu de novo. Protestei pela janela, não faz isso! e já me dirigi a porta da casinha para tirar a Laura dali, mais por instinto do que por convicção.

Procurei em volta pelo pai ou responsável, claro que não tinha ninguém.

Disse para ela Vamos sair, essa brincadeira não tá legal, mas ela quis ficar. Seguiram pulando mais um tempo, cada uma na sua, até que o monitor pediu que as duas saíssem para dar lugar aos próximos da fila. Na saída, enquanto descia o pequeno escorregador que levava para fora do brinquedo, eu disse para menina má que o que ela tinha feito era muito feio. Achei que era o máximo (ou o mínimo?) de educação que eu, uma desconhecida, podia dar. Ainda procurei mais uma vez pelos responsáveis por aquela criança (falaria algo se os encontrasse?), mas só a vi acompanhada de outras duas meninas alguns anos mais velhas.

Fiquei triste por alguns minutos, não sei se pela Laura ou pela menina, talvez pelas duas. Doeu ver a fragilidade da minha filha, sua incapacidade de se defender, ou mesmo de se dar conta de que havia sido ofendida, maltratada, desprezada de uma forma grosseira. Senti o baque porque tem algo de puro nela que me comove, e sei que esse episódio é só o primeiro de muitos que vão se repetir, até que a sucessão de asperezas um dia prevaleça e essa pureza desapareça por completo, para nunca mais voltar.

Fiquei triste pela menina, que tinha raiva, não tinha modos, não tinha ninguém que olhasse por ela.

A festa continuou e a banda dos SuperAmigos, com Batman nos vocais, tocou animadamente várias das nossas músicas. Dançamos, cantamos, nos abraçamos e fomos felizes como sempre, ou como nunca. Voltei com os 16kg dela no colo, com a desculpa de que estávamos com pressa, atrasadas para amamentar a Beatriz. Mentira, só queria protegê-la mais um pouco e me certificar de que estava mais intacta do que eu.