O bilhetão

O bilhetão

Fui ao super comprar chuchu.

Chovia, eu tinha ido dormir tarde, a geladeira não estava exatamente vazia, havia comida suficiente para o almoço – e eu me toquei pro super, no meio da manhã, para comprar chuchu porque era essa a tarefa da Laura esta semana. Estava lá, no “bilhetão” da escola: quarta-feira, levar chuchu e couve-flor.

Eu não sou, claramente, uma mãe-escoteira. Não tá no sangue aquele envolvimento, aquela participação ativa, recortar bandeirinha, vender rifa, essas coisas. Mas procuro fazer a minha parte; se tem que ir de roupa amarela, vamos arranjar uma camiseta do Brasil; se tem que levar 2kg de areia, carrego no colo a criança mais os sacos com orgulho. Até tatu-bola e formiga já foram na mochila por conta das tarefas do bilhetão.

Esta semana a função, parece, gira em torno de brincar de feira e provar novos sabores. Mesmo apostando que a Laura, no auge da sua neofobia alimentar, vai se recusar a provar tudo, não titubeio em seguir o combinado. Vou ao super comprar um chuchu, um mísero chuchu. Para ela não fazer feio? Sim. Por respeito aos colegas? Também. Mas fundamentalmente em respeito à escola e a tudo que eles fazem por lá.

A Laura entrou na escola muito cedo, com 1 ano e 3 meses. Mal caminhava, se expressava como podia, recém tinha se recuperado de uma bronquiolite que a levou para a UTI em pleno carnaval. Mas a gente confiava na escola e estávamos convictos de que era importante para ela conviver em grupo com outras crianças e se expor a novos estímulos, fora da redoma pais-avós-babá. Por mais dedicados e versados que fôssemos como família, acreditávamos na importância das experiências que só a escola pode proporcionar.

E ela não estava indo para qualquer escola. Estava indo pro Pato – a lendária escola frequentada na infância pelo pai dela, pelo tio e outros tantos dos nossos atuais amigos e conhecidos. Trinta e tantos anos depois, as diretoras ainda reconheciam o Christian pela fisionomia, lembravam com detalhes quem ele era, as peculiaridades da família, as histórias daquela época. Uma escola com tradição, boas referências, próxima de casa – do que mais eu precisava?

E lá se foi ela, chuquinha na cabeça, saia colegial azul, melissinha nos pés e mochila nas costas, toda faceira para o seu primeiro dia de aula. Fez a adaptação sem qualquer percalço, nos dando tranquilidade e reforçando a confiança que tínhamos na escola. A cada bilhetão e suas inusitadas demandas, pensava no universo de coisas que eles tentavam descortinar àquelas pessoinhas e tudo se somava a validar a decisão que havíamos tomado de entregá-la tão cedo ao mundo, ou a uma pequena versão dele que ficava num sobrado amarelo na rua Dona Augusta.

IMG_0044

Quase dois anos depois, a Laura em pouco lembra aquele bebezão de fraldas que eu empurrava no carrinho para a escola pelas ruas do Menino Deus. Mantém os olhos expressivos e as coxas grossas, o cabelo cacheado e o sorriso fácil. Mas agora é uma menina, cheia de porquês, que fala “tipo” e “por exemplo” para explicar o que pensa e encaixa um “não é?” no final das frases para checar se o seu raciocínio procede. Tudo nela tem um pouco de lógica e muito de afeto ao mesmo tempo – e nisso eu vejo a mão da escola.

Confrontados com a necessidade de sair do Pato no ano que vem, percorremos nada menos que 12 escolas até encontrar, na 13ª, uma que nos pareceu à altura da experiência feliz e rica que a Laura viveu lá até hoje. Nessa função toda, descobri que nem tradição, nem boas referências, nem proximidade são suficientes – é preciso uma mistura de carinho, empatia, segurança e experiência. Coração grande e pulso firme, uma combinação difícil de se encontrar por aí.

***

Volto para casa secretamente orgulhosa daquele chuchu bem verdinho na sacola, meu pequeno troféu, prova de que sou uma mãe zelosa e competente. Encaro triunfante o bilhetão afixado na porta da geladeira, dou uma última conferida:

Laura: 1 couve-flor e 2 chuchus.”

Como assim dois?? Mando uma abobrinha para compensar, junto com um pedido de desculpas para professora. Falhei no meu último bilhetão. Mas eles vão entender.

Em breve, estaremos encarando ao lado dela o desafio da re-adaptação – novos amigos, novo ambiente, novas propostas. Não vou sentir saudades do bilhetão, mas jamais esqueceremos da simplicidade e do amor com que as coisas são feitas no Pato.

Mãos, olhos e boca

Mãos, olhos e boca

Como nunca mais serei mãe de um recém-nascido (nem de um bebê de 1, 2, 3 meses e por aí vai), a cada semana me pego me despedindo de alguma dessas fases que nunca vão se repetir.

Beatriz completou 3 meses na semana passada e agora (numa didática demonstração de coordenação olho-mão!) ela já tenta pegar os acessórios da cadeirinha, para orgulho e satisfação da mãe coruja aqui. Ainda que não sejam muito obedientes, as mãos já funcionam voluntariamente.

 

****

Um pouco antes, quando as mãos ainda não respondiam ao cérebro, a brincadeira preferida dela vinha sendo me provar. Experimentar com a boca minha bochecha, meu queixo, nariz, testa – qualquer parte do rosto que se aproximasse ganhava uma deliciosa mordida babada sem dentes. E um sorriso depois.

Enquanto ela se divertia me mordendo, uma pontada de nostalgia me afligiu; me dei conta de que essa coisa, gostosa e tão primitiva, de explorar o mundo com a boca estava por ficar para trás. Logo, logo? Muito em breve? Será que eu ainda tenho mais um tempo? Foi aí que lembrei desta foto, que o Christian ainda usa como ícone do meu contato no celular. Catei ela no iCloud e respirei aliviada: é de junho de 2015, Laura tinha 6 meses.

IMG_3482

Ainda bem que algumas coisas se despedem devagar.

O pula-pula

O pula-pula

Eu tenho uma criança doce, sabidamente doce, não sou só eu – mãe – quem digo. A Laura é um docinho, de verdade. Toda faceira, carinhosa, amorosa, daquelas que gostam de gente e de estar perto ou às vezes grudada. Gosta de se aninhar no colo, de dançar de mãos dadas. Tem ainda a ingenuidade, própria dos dois anos, que lhe dá uma dose extra de graciosidade.

Só que hoje uma menina cuspiu na cara dela. Duas vezes.

Não era uma menina muito maior, devia ter seus 3, no máximo 4 anos. Estava vestida com uma fantasia genérica de princesa, rosa ou vermelha, saia de cetim e tule, os cabelos pretos presos num rabo de cavalo já desalinhado, o rosto colorido por uma dessas pinturinhas de festa de criança.

As duas, Laura e a menina má, dividiam há alguns segundos uma espécie de cama elástica montada dentro de uma casinha inflável. O monitor na porta, entediado, regulava as entradas. Eu, pela tela plástica da janelinha, acompanhava e incentivava a Laura, toda feliz e indiferente à sua notória inabilidade em saltar. A menina má pulava muito alto, vigorosa, com muito mais coordenação e destreza do que a pequena Laura. Que a um dado momento pulou e caiu. Sorriu sentada, como de costume. Levantou e quis convidar a menina para brincar: pegou a mão dela e ganhou uma cusparada na cara.

Vi a expressão dela de surpresa e incompreensão. Eu me ardi de raiva e antes que fizesse qualquer movimento, a menina cuspiu de novo. Protestei pela janela, não faz isso! e já me dirigi a porta da casinha para tirar a Laura dali, mais por instinto do que por convicção.

Procurei em volta pelo pai ou responsável, claro que não tinha ninguém.

Disse para ela Vamos sair, essa brincadeira não tá legal, mas ela quis ficar. Seguiram pulando mais um tempo, cada uma na sua, até que o monitor pediu que as duas saíssem para dar lugar aos próximos da fila. Na saída, enquanto descia o pequeno escorregador que levava para fora do brinquedo, eu disse para menina má que o que ela tinha feito era muito feio. Achei que era o máximo (ou o mínimo?) de educação que eu, uma desconhecida, podia dar. Ainda procurei mais uma vez pelos responsáveis por aquela criança (falaria algo se os encontrasse?), mas só a vi acompanhada de outras duas meninas alguns anos mais velhas.

Fiquei triste por alguns minutos, não sei se pela Laura ou pela menina, talvez pelas duas. Doeu ver a fragilidade da minha filha, sua incapacidade de se defender, ou mesmo de se dar conta de que havia sido ofendida, maltratada, desprezada de uma forma grosseira. Senti o baque porque tem algo de puro nela que me comove, e sei que esse episódio é só o primeiro de muitos que vão se repetir, até que a sucessão de asperezas um dia prevaleça e essa pureza desapareça por completo, para nunca mais voltar.

Fiquei triste pela menina, que tinha raiva, não tinha modos, não tinha ninguém que olhasse por ela.

A festa continuou e a banda dos SuperAmigos, com Batman nos vocais, tocou animadamente várias das nossas músicas. Dançamos, cantamos, nos abraçamos e fomos felizes como sempre, ou como nunca. Voltei com os 16kg dela no colo, com a desculpa de que estávamos com pressa, atrasadas para amamentar a Beatriz. Mentira, só queria protegê-la mais um pouco e me certificar de que estava mais intacta do que eu.

Festa de aniversário

Festa de aniversário

Saio na corrida para comprar uma meia-calça branca para Laura. Temos um encontro com a Elsa e a Ana às 17h30. Que bom que temos um shopping a três quadras de casa, nada mais conveniente para uma mãe descabeçada. O vestido da festa – amarelo de lacinho – já estava escolhido, mas a ameaça de frio me fez prudentemente experimentar as três meias-calças brancas que encontrei na gaveta do roupeiro dela. Nenhuma ficou boa – uma furada, outra pequena, a outra grande, toda fronha e desengonçada.

Chego na loja e, claro, não tem meia-calça branca. Lembro de ter comprado ali mesmo duas leggings – uma preta e outra azul-marinho – que viraram uniforme. A Laura nos últimos meses decidiu que só gosta de saia e vestido, escolhas muito convenientes para o inverno. Com isso, tá sempre usando as benditas leggings. Resolvido, então, comprarei leggings, isso, no plural, não só uma (a branca, que eu preciso), mas duas leggings que é para levar uma na cor preferida da mocinha – rosa, naturalmente. Um agradinho materno.

Chego para ela estrategicamente entusiasmada com as minhas compras, as duas leggings na sacola.

– Olha que lindo que a mamãe comprou!

– Eu quero a rosa.

– Filha, não combina rosa com amarelo.

– Mas eu quero a roooosaaaa! Buáááááá

Botão do descontrole em modo on. Olho no relógio, 17h. Precisamos contornar isso já.

– Tá então vai sem legging, tudo bem. Mas bota o casaquinho branco para sair.

– Não, eu quero o pêto!

Mais lágrimas se amontoam nos olhos já vermelhos. Respiro fundo. Cedo de novo: basta que ela leve o casquinho branco e coloque quando estiver com frio.

– Fica bem assim?

– Siiiim.

Enxuga as lágrimas. Vai dormindo na cadeirinha. Acorda revigorada, veste sem protesto o casaquinho branco antes mesmo de descer do carro. São 17h33. Nos aproximamos do salão já ao som de “Let it go, let it go”.  Abro a porta do salão e me deparo com as personificações de Elsa e Ana, um cover perfeito das princesas, já em meio a sua performance musical. Laura prontamente senta no chão ao lado das demais crianças, todas boquiabertas e encantadas com aquelas visitas ilustres.

****

Muitas palminhas e coreografias depois, é hora do parabéns. Laura consegue um lugar de honra na mesa, não ao lado da aniversariante, mas da Ana.

Velinhas apagadas, Laura quer descer. Não quer esperar o bis, há coisas mais interessantes na sua mira:

– Mãe, posso comer esse?

****

Alguns docinhos e copinhos depois, Ana se aproxima e convida a Laura para brincar do jogo da memória. Ela ainda não entende esse jogo, mas como o convite é da Ana, é irrecusável. Senta-se na roda, ao lado da Ana, e observa, aguardando sua vez. Me aproximo para perguntar alguma coisa, ela fica com meu pacote de pipocas. Na primeira rodada, Ana gentilmente segurou as pipocas para ela. Na segunda, foi a vez de um brigadeiro lambido de colher, depois uma água de coco tingida de azul. Quando se aproximou o garçom com as fatias de bolo, achei melhor acabar logo com o jogo.

****

A anfitriã me avisa que Elsa e Ana estão indo embora. Se quiser foto, a hora é agora. Laura diz que não quer, mas eu sei que quer. Me ofereço para tirar junto. Resolvido. Feliz?

– Mãe, mas por que elas vão embora agora?

– Por que elas tem outra festa para ir.

– Mas de quem é a festa?

– Ah, Laura, não sei. Alguém que a gente não conhece.

– Mas por quê?

***

É hora de ir para casa, preciso amamentar a Beatriz. Nos despedimos, Laura escolhe com cuidado uma das lembrancinhas, como se não fossem todas iguais.

– E aí – pergunto – gostou da festa?

– Simm. Ô, cadê meu casaquinho pêto?

Dia das crianças

Dia das crianças

É dia das crianças, feriado no meio da semana. A rotina começa como a de todos os dias: tão logo amanhece, o bebê acorda, indiferente à minha preguiça. Respiro fundo, levanto e dez minutos depois, Beatriz está amamentada e feliz. Sorri, se espreguiça no meu colo, quer voltar a dormir. Caminho com ela pelo quarto, espero arrotar, devolvo ao berço.

Inútil tentar voltar para cama – o dia já começou. Resoluta, recolho o jornal embaixo da porta, começo a preparar o café, chove muito lá fora, não vai dar para sair. Dia das crianças não combina com chuva. Enquanto coloco água na cafeteira, Laura acorda, vem me procurar na sala. Mãe, vamo bincar? É, não são sete horas ainda, mas o dia realmente já começou.

Não comento nada com ela de que hoje é dia das crianças, vou esperar o pai acordar para dar o presente, mas talvez pela data me sinto forçosamente obrigada a aceitar o convite, sem negociar. Abandono o preparo do café, devolvo o ovo à geladeira, nem sei onde larguei o jornal. Quem sabe depois.

Engreno a brincadeira o suficiente para distrai-la com suas próprias ideias por alguns instantes. Encontro o jornal na bancada, leio as manchetes, separo os ingredientes da omelete, ligo a cafeteira. Pronto, as coisas estão andando. O dia vai ser bom, apesar de toda a chuva.

Ouço Beatriz chorar, preciso recolhê-la do berço. Agora são três a equilibrar– Laura, Beatriz, o café que já esfria na térmica. Sinto cheiro de teflon queimado e desligo a frigideira que deixei vazia aquecendo sob o fogão. A massa da omelete ficou ali esperando. Como depois.

Olho a chuva pela janela, a cidade quase parada, e evito pensar no que eu queria ou poderia querer agora. Evito pensar em mim. Vou construindo um discurso interno para me convencer de que todas as pequenas abdicações cotidianas são apenas isso, pequenas abdicações desimportantes – o jornal nunca tem nada que preste; minha cama nem é tão boa assim; já dormi o suficiente; posso deixar para amanhã. E quando começa a bater uma pontinha de dúvida ou sofrimento por essas meias-verdades, me forço a pôr a cabeça no lugar e lembrar do quanto já desejei estar justamente onde estou.

Ao longo do longo dia, conciliamos afazeres domésticos (sempre atrasados) com brincadeiras de boneca e princesas com a Laura. Recorremos aos móbiles, tapetes, espelhos e caixas de música para entreter a Beatriz. Sobrevivemos a cólicas e ao mal humor, administramos a fome de uma e o sono da outra. Chegamos exaustos e vitoriosos à noite.

Feriado-com-chuva combina com uma xícara de chá, um livro, uma maratona na TV, uma longa sesta depois do almoço. Mas não dá. Nem hoje, nem amanhã, nem tão cedo. Alguém sabe como é que a gente resiste a isso? Amor, alguns dirão, amor é justamente isso.

A queda

A queda

É noite e a chuva prometida finalmente chegou. As crianças dormem, a televisão baixinha no quarto me distrai enquanto o sono não chega. O silêncio é subitamente rompido pelo som, muito nítido, de um bico que cai no chão. Não me alarmo, mas na dúvida (será instinto?), vou até o quarto ao lado, completamente escuro, só as luzes da rua atravessando os vazios da persiana.

Quase esbarro no carrinho, todo preto, parado ao lado do berço; palpo o assento, toco de novo e não encontro ninguém. Olho o berço vazio. De relance, percebo algo no chão, um vulto. Incrédula, recolho o pequeno corpo estirado de bruços, imóvel, silencioso. Um misto de pânico e aflição só me deixam dizer “Christian, ela caiu”.

Ela dorme, a respiração calma e regular, o corpo quente. Não chora. Mexe braços e pernas, procuro alguma marca visível no corpo – não há. Ofereço o seio como quem pede desculpas e se corrói de uma culpa avassaladora. Palpo todas as dobras, examino todo o crânio, tudo parece no lugar. Vai dormir aqui agora. Nós não vamos dormir.

Na tentativa infrutífera de apaziguar a dor e amenizar o erro conscientemente cometido, nos distraímos com perguntas inúteis e sem resposta – o que aconteceu? Como ela caiu? Por que estava de bruços? Como é que não chorou? Quem colocou ela no carrinho? Só sinto culpa e sofro pela fragilidade exposta dela e de todos nós.

Só que a sensação de culpa hoje é diferente, dói diferente. Aquela culpa maternal, ao mesmo tempo boa e doída, romba, redonda, é feita de pura entrega e compaixão, aflora na vontade de livrar o outro de qualquer dor, mesmo das necessárias. Hoje a culpa é incisiva, lacerante, aguda. A culpa de quem errou com quem não podia errar, não devia errar, com quem não tem defesa, não tem escolha, só pede amparo. É uma culpa monstruosa, avassaladora, de quem – por um triz, por sorte, por destino, por Deus – se safou de uma tragédia da qual jamais, jamais, jamais se recuperaria. Dorme, meu anjo, que teus anjos te protegem.

Novos tempos

Novos tempos

Sirvo um cálice de vinho, a casa em silêncio, as duas dormindo. Missão cumprida, mais um dia, mais uma vez. Penso sobre tudo o que passamos, a longa noite que ainda está por vir, sinto o cansaço feliz da maternidade.

Como quase todos, foi um dia de altos e baixos; alguns choros, quase nenhuma briga, muitos colos e sorrisos. Mas com nitidez ficou o momento (5, 10 minutos?) em que vi minha pequena Beatriz brincar pela primeira vez.

Deitada sobre a minha cama, barriga ainda estufada, cabeça na almofada, percebeu o pequeno bichinho de pelúcia que chacoalhei despretensiosamente em frente ao seu rosto. Agitei o bonequinho, ouvi o tsch-tsch-tsch das bolinhas na sua barriga, apertei suas asinhas barulhentas, e ela sorriu. Repeti os movimentos, conferi sua reação e como num experimento me certifiquei de que aquilo não era casualidade. Beatriz sintonizou com o papagaio (seria um passarinho?) e vi uma mistura de espanto e alegria colorirem o seu rosto. Minha filha já brinca. Pronto, acabou – pensei, não sei se com alívio ou comiseração. Já não tenho mais aquele bichinho puro reflexo, que não quer mais do que a fralda limpa, o seio quente e o colo apertado. Nunca mais terei.

O celular toca, a brincadeira é subitamente interrompida e ela chora, como que a comprovar para mim que, sim, as coisas mudaram.

 

***

Enquanto preparava a cama com a avó, Laura soltou um “Mas quem vai dormir comigo?”, com uma voz melosa, quase manipuladora. “Mas você não dorme sozinha todas as noites?”, retrucou a avó, coração já meio mole após 3 noites seguidas dividindo o pequeno quarto com a neta. Chegaram a um acordo de que a avó deitaria ao lado dela até que pegasse no sono.

Nesta noite – a última em que ficariam juntas – não quis conversas, não quis estórias. Só o contato da pele quente e a presença maiúscula da avó, que lhe trazia um misto de conforto e segurança que só os avós são capazes de oferecer.